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AUTORRETRATO INFAMILIAR

Texto por: Joyce Farias. Catálogo 32° Programa de Exposições do Centro Cultural de São Paulo. 2022

 

AUTORRETRATO INFAMILIAR

O retrato, um gênero explorado em diferentes linguagens artísticas, se consolidou com a ideia pictórica da representação de indivíduos.

Já o autorretrato é mais que um desdobramento do retrato; por vezes, aparece como a superação técnica de um artista. Mas há autorretratos que ultrapassam questões técnicas e revelam também o artista tão humano quanto qualquer outro indivíduo, porque nos conduz para um universo mais intimista daquele que criou sua autoimagem.

O trabalho de Dariane Martiól, Autorretrato Infamiliar, nos leva a pensar na forma que esse universo intimista pode ser explorado. Trazendo revelações ou fornecendo subjetividades, a artista escolhe como conduzir e como narrar sua poética para o público. Martiól propõe adentrarmos no seu “lar”, na sua origem, remetendo a uma atmosfera familiar um tanto conflituosa, construída entre ela e sua mãe.

Numa primeira impressão, suscita indagações: até que ponto uma obra de arte pode construir narrativas, reflexões acerca de quem a criou? Seria um resgate verdadeiro da história de seu criador?

Dificilmente há respostas concretas para essas questões. Todavia, colocá-las neste texto não tem a intenção de esgotar as possibilidades de leituras da obra de Martiól. Essas questões nos ajudam a compreender a temática explorada pela artista, pois é certo que, no campo das artes, nem sempre a origem de um artista é a ideia central de sua produção. Mas é inegável que diferentes e diversos artistas concordaram em um ponto: a origem, seja ela qual for (geográfica, biológica, cultural e afetiva) é sempre o pano de fundo para qualquer criação. Por isso, vale ressaltar o argumento de Martiól para conceber seus autorretratos com sua genitora:

“As proposições artísticas que desenvolvo com a minha mãe fazem parte de um projeto filosófico situado no contexto arte-vida que pretende através de fotografias, vídeo e poemas propor reflexões sobre o envelhecimento, o erotismo, a performatividade de gênero, a maternidade e as convenções morais acerca do amor incondicional e da responsabilidade parental. É um jogo artístico de reafirmação da vida pelo qual minha mãe e eu temos a arte como estratégia de sobrevivência. Sou filha de Adair Martiól, que tem 70 anos, é mãe solo e morava sozinha no interior do Paraná até o meu retorno em 2020. Autorretrato Infamiliar é um projeto fotográfico no qual registro os nossos corpos dentro do espaço doméstico. O título faz referência ao conceito de Unheimlich que na psicanálise diz respeito a algo que é familiar, mas se apresenta de uma maneira atípica, causando certo estranhamento.

Autorretrato Infamiliar é um projeto que contém diversas séries de fotografias nas quais Martiól e sua mãe performam, constituindo uma atmosfera embebida dessa ideia de genealogia, de herança e identidade. Seja pelos seus corpos, pelos elementos carregados de simbolismos deste universo familiar tão distinto entre mãe e filha.

Na 32ª edição do Programa de Exposições 2022 do CCSP, Martiól expõe uma das séries deste projeto. Numa breve descrição, trata-se de fotografias em sequência, onde as duas retratadas estão semi-nuas e performam entre elementos velados com toalhas de crochê. Martiól também tem seu rosto velado. Toda composição da série causa certa curiosidade do que está escondido. No entanto, a única ação de desvelar acontece quando o rosto da filha é desvelado pela mãe. Tudo parece tao conectado dessas imagens, há um diálogo incorruptivel entre as retratadas, uma espécie de elo, que de imediato nos reconecta ou nos permite reconhecermos através com essa ideia de espelhamento (uterino) de nossas origens.

Ainda compondo esta série no CCSP, também está exposta uma das toalhas de crochê, obra de autoria da mãe da artista. Neste ponto, a artista se distancia daquelas normas canônicas de um sistema de arte mais conservador e instiga o publico sobre aquelas questões sobre origem e criação, já que Martiól não só colocou sua genitora como sua fonte de origem, mas também como co-criadora de sua obra.

©2026 por Dariane Martiól.

DARIANE.MARTIÓL

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