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AUTORRETRATO INFAMILIAR

Texto por: Ricardo Resende. Curador, Museu Bispo do Rosário Arte Contemporânea. 2021

 

AUTORRETRATO INFAMILIAR, A CONSTRUÇÃO DO IRREAL

Fotografar nos dias de hoje é muito fácil: basta ter um aparelho celular com boa câmera fotográfica, ao alcance das mãos – o que costuma acontecer –, e à disposição do desejo de fotografar. Esse desejo passou a ser um gesto banal e a difusão das imagens produzidas também, via redes sociais. É tudo muito fácil. No entanto, um trabalho, para ter qualidade criativa e se destacar pela qualidade plástica fotográfica vai exigir do criador capacidade técnica e conhecimento visual para abordar temas contemporâneos como identidade, gênero, feminismo, violência, racismo, decolonização e muitos outros temas caros à arte contemporânea. Em outras palavras, o fotógrafo deverá propor um universo narrativo inquietante e que cause estranhamento.

O ensaio-registro fantasioso de Dariane Martiól, junto de sua mãe, contempla retratos encenados e dramatizados, em que fotógrafa e mãe teatralizam a relação conflituosa. Convívio tumultuado, agravado pela condição de confinamento imposta pela pandemia do coronavírus, que assolou países inteiros e arruinou relações familiares, em 2020. As pessoas não se conheciam mais e se viram obrigadas a compartilhar os seus espaços de moradia e vida, estreitamente. Outras, que se isolaram por completo, também sofreram e ainda sofrem com uma nova forma de solidão, a autoimposta.

O ensaio fotográfico “Autorretrato infamiliar”, como o título informa, problematiza a relação entre mãe e filha. É a partir de sua narrativa inquietante e estranha que a artista explora duas “corpas”, expõe visceralmente formas e desformas em situações aparentemente de flagelo, em uma espécie de suicídio mútuo. Uma encenação que sugere sessões de tortura e mutilação com momentos que aparentam aflorar o afeto versus o ódio. Parece ser isso o que orienta as cenas registradas por Dariane Martiól.

No ensaio-registro do corpo da mãe junto ao de Martiól, as cenas são evidentemente articuladas pela fotógrafa, que atua diante da própria câmera. São imagens ambíguas, que falam de amor e ódio, de realidade e fantasia.

Filha única, a relação com a mãe era conflituosa, segundo relato da artista, mas com a ajuda da câmera fotográfica, conseguiu um novo olhar e, através dele, ressignificou muita coisa dessa relação mãe-filha, filha-mãe. Por meio da fotografia, mãe e filha se reaproximaram e puderam, assim, exorcizar o ódio e exercer a harmonia com intimidade e, claro, aflorou mais afeto.

O vínculo afetivo parece ter sido reestabelecido. A imagem fotográfica passou a funcionar como um cordão umbilical que liga as duas corpas, em uma quase simbiose.

©2026 por Dariane Martiól.

DARIANE.MARTIÓL

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