Texto por: Mônica Hoff, curadora e coordenadora do Programa Pivô Pesquisa. 2024
Pensar-se como animal é um exercício recorrente na prática artística de Dariane Martiól. Não porque isso a aproxima de seres outros que humanos, mas, porque a põe em conflito naquilo que a torna humana. Seu interesse pelo animalesco está relacionado a como este lhe permite habitar o absurdo como sentimento inapreensível entre um estado e outro. É no abismo que seu trabalho acontece; é na vida em excesso que seu pensamento ganha forma –na linha tênue entre o que tangencia e o que não cabe na moralidade cristã.
Amoral? Talvez. Imoral? Jamais. A artista sabe que a arte, diferente da filosofia, campo que conhece bem, não quer melhorar o “homem”, tampouco chegar a Deus. Seja nas performances que cria com a mãe, seja nos estudos sobre a figura da centaura, pesquisa que desenvolve em sua residência no Pivô, em ambas Dariane faz da erotização da vida a ferramenta que lhe permite jogar com o absurdo e, assim, escapar à lógica moralizante da ascensão divina.
Se na série de trabalhos criados com a mãe, a ideia de matricídio é o elemento conceitual primeiro, quando linguagem, sua morte não é senão uma construção filosófico-psicanalítica da morte de uma certa mãe e de uma certa ideia. Ao propor tal jogo performático com sua mãe, Dariane a mata, mas de prazer. Tal como Ocean Vuong, em sua longa carta para a mãe, a artista constrói “uma prosa lírica que nos acossa” –por sua dimensão trágica, mas principalmente por sua dimensão erótica.
Na pesquisa com as centauras, figuras “mitológicas” inexistentes na mitologia grega, campo de extremo interesse para a artista, ao colocar-se como uma, Martiól faz do animalesco não algo que instaura a possibilidade de ser outra que humana, mas a possibilidade de ser, acima de tudo, humana, demasiado humana –ainda que outra humana.
Dariane sabe que os (nossos) monstros têm razão, e trabalha arduamente para nos mostrar isso.
